As fintechs de crédito digital ampliaram sua atuação no Brasil em 2025, mesmo em um cenário marcado por juros elevados, maior custo de captação e exigências regulatórias mais intensas. A expansão aparece na Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2026, realizada pela PwC Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD).
Segundo o levantamento, as empresas participantes concederam R$ 53,8 bilhões em crédito ao longo de 2025. O valor representa crescimento de 51% em relação ao ano anterior e indica que o segmento passou a operar em uma etapa de maior escala, com foco não apenas na conquista de usuários, mas também na eficiência das operações e na gestão dos riscos envolvidos.
A base de clientes também avançou. As fintechs pesquisadas alcançaram 86,1 milhões de pessoas físicas no Brasil e outros 8,7 milhões de consumidores no exterior. Somados, os números chegam a 94,9 milhões de clientes atendidos, um indicador da dimensão que os serviços financeiros digitais assumiram dentro e fora do mercado brasileiro.
Setor entra em fase de consolidação
O estudo aponta que 60% das fintechs participantes já estão em fase de consolidação. Nesse grupo, estão empresas com faturamento ou investimentos superiores a R$ 20 milhões. O dado ajuda a explicar uma mudança no perfil do segmento: a prioridade deixa de ser apenas testar modelos de negócio e passa a envolver crescimento sustentável, estrutura de capital, controles internos e capacidade de atender volumes maiores.
Esse amadurecimento ocorre em um ambiente financeiro mais desafiador. A elevação dos juros aumenta o custo de captação e pode pressionar as margens das empresas, enquanto o ambiente regulatório exige maior organização dos processos. Para acompanhar esse cenário, as fintechs precisam combinar tecnologia, análise de risco e mecanismos capazes de reduzir perdas sem comprometer o acesso ao crédito.
O contexto regulatório faz parte da agenda permanente do sistema financeiro brasileiro. O Banco Central do Brasil reúne em sua página de notícias informações sobre medidas e discussões relacionadas ao funcionamento do setor, referência importante para empresas que atuam com serviços financeiros digitais.
Garantias ganham espaço nas operações
Outro destaque da pesquisa é o avanço do uso de garantias. De acordo com o levantamento, 79% das fintechs já aceitam algum tipo de garantia em suas operações, o maior nível da série histórica apresentada no estudo. A adoção desse recurso sinaliza uma preocupação maior com a proteção da carteira e com a estruturação de operações em um período de crédito mais caro.
Na prática, a garantia pode contribuir para reduzir a exposição da instituição ao risco de inadimplência, embora não elimine a necessidade de avaliar a capacidade de pagamento dos tomadores. O dado também reforça que a evolução das fintechs não está restrita à oferta de aplicativos ou à simplificação da jornada do cliente: envolve mudanças na arquitetura financeira dos produtos e na forma de administrar o risco.
Inteligência artificial avança na estratégia
A inteligência artificial aparece como uma das principais frentes de investimento para os próximos anos. Segundo a pesquisa, 96% das empresas afirmam que pretendem implementar ou ampliar soluções de IA nos dois anos seguintes. A tecnologia tende a ser associada a atividades como automação, análise de dados, eficiência operacional e apoio à avaliação de crédito, embora a pesquisa não detalhe uma aplicação única para todas as participantes.
O avanço da IA, entretanto, também aumenta a importância de controles sobre os modelos utilizados. As fintechs precisam observar a qualidade dos dados, a segurança das informações, a explicabilidade das decisões automatizadas e a proteção dos consumidores. Em operações de crédito, uma ferramenta mais rápida não é suficiente se produzir avaliações inconsistentes ou dificultar a compreensão dos critérios aplicados.
Expansão veio principalmente das operações existentes
O crescimento registrado em 2025 não foi impulsionado principalmente pela criação de uma grande quantidade de produtos novos. A pesquisa indica que 82% da expansão veio do aumento das operações já existentes, enquanto 18% teve origem no lançamento de novas soluções.
Esse resultado sugere uma estratégia de crescimento orgânico, baseada na ampliação de serviços que já demonstraram demanda. Para as empresas, isso pode representar menor dependência de experimentos e maior concentração em processos conhecidos, com aperfeiçoamento da distribuição, do atendimento e da análise de risco. Para consumidores e negócios que buscam financiamento, a tendência pode significar maior oferta de alternativas digitais, mas também exige atenção às condições do crédito e ao custo total das operações.
Com mais clientes, maior volume concedido e planos acelerados de adoção de inteligência artificial, as fintechs de crédito digital entram em uma nova fase no Brasil. O desafio será sustentar a expansão sem perder qualidade, transparência e controle, especialmente em um mercado no qual tecnologia e regulação avançam simultaneamente.

