A proibição das bets no Brasil mudou de forma abrupta o cenário criado recentemente para regular as apostas de quota fixa. Publicada em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória nº 1.394 determina o fim da exploração, da oferta, da intermediação e da publicidade de apostas esportivas e jogos on-line no país.
O texto alcança empresas instaladas no Brasil e plataformas sediadas no exterior que ofereçam serviços a pessoas localizadas no território nacional. A medida também atinge concessões, permissões e autorizações concedidas por estados e pelo Distrito Federal, retirando das administrações locais a possibilidade de manter operações próprias nessa modalidade.
De acordo com o Planalto, a MP estabelece uma mudança completa no tratamento jurídico dado ao setor. As bets, antes submetidas a um processo de autorização e fiscalização, passam a ser consideradas uma atividade que deverá ser encerrada, em uma decisão que já provocou disputa política, econômica e judicial.
Como funcionará a devolução dos saldos
O cronograma divulgado prevê que os apostadores poderão solicitar voluntariamente a retirada dos valores disponíveis até 5 de outubro de 2026. A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos autorizados deverão sair do ar, interrompendo o acesso às plataformas e às operações regulares de apostas.
Os saldos remanescentes deverão ser devolvidos pelos bancos entre 9 e 14 de outubro. Segundo a Agência Brasil, a Caixa Econômica Federal poderá intermediar a restituição quando houver impedimentos para que o pagamento seja realizado diretamente pelas instituições financeiras.
A execução desse calendário será um dos principais testes da medida. Além de localizar os valores mantidos nas plataformas, será necessário identificar os titulares das contas e garantir que os recursos sejam devolvidos de maneira regular. A operação também deve exigir coordenação entre empresas de apostas, bancos, órgãos públicos e usuários.
Governo cita endividamento e combate a irregularidades
A justificativa apresentada para a proibição está relacionada a problemas como endividamento, vício em jogos, proteção das famílias e utilização das apostas em atividades ilícitas. A mudança ocorre em um momento no qual o governo também intensificou o combate às plataformas que operavam fora das regras estabelecidas.
Conforme informou a Agência Brasil, uma força-tarefa dos Ministérios da Justiça e da Fazenda derrubou 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas após a publicação da MP. O governo também passou a monitorar redes utilizadas para divulgação e movimentações financeiras relacionadas ao setor.
A ofensiva, porém, não elimina o risco de migração de apostadores para páginas clandestinas. Com as plataformas autorizadas retiradas do mercado, a fiscalização terá de acompanhar serviços digitais que podem mudar de endereço, operar a partir do exterior e utilizar diferentes meios de divulgação e pagamento.
Entidades recorrem ao Supremo Tribunal Federal
A decisão também abriu uma frente de conflito no Supremo Tribunal Federal. Em 28 de setembro de 2026, a Associação Nacional de Jogos e Loterias e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável acionaram a Corte para tentar suspender a medida provisória.
As entidades argumentam que a proibição foi abrupta e prejudica empresas que investiram no Brasil sob regras aprovadas pelo próprio Estado. A contestação coloca em debate a segurança jurídica e os efeitos de uma mudança que transforma, em curto período, uma atividade formalmente autorizada em um mercado destinado ao encerramento.
A disputa ainda envolve os limites do uso de uma medida provisória e a responsabilidade pública diante de investimentos realizados durante a vigência do marco regulatório anterior. Enquanto o STF analisa o caso, empresas, instituições financeiras, clubes esportivos, apostadores e órgãos de fiscalização precisam lidar com um calendário de desligamento e restituição já definido pelo governo.
Uma mudança com efeitos além das plataformas
A proibição das bets no Brasil não atinge apenas os sites e aplicativos de apostas. A medida interfere em contratos de publicidade, fluxos financeiros, estratégias de empresas de tecnologia e mecanismos de fiscalização digital. Também cria dúvidas sobre como o mercado será reorganizado caso a decisão seja mantida e sobre a capacidade do poder público de impedir a atuação de operadores clandestinos.
O episódio evidencia a distância entre regulamentar uma atividade e eliminá-la. Ao justificar a decisão pela proteção social e pelo combate a irregularidades, o governo assume o desafio de demonstrar que o fechamento das plataformas autorizadas será capaz de reduzir os danos associados às apostas sem ampliar o espaço ocupado por operadores ilegais.

